sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Novo Papel Do Ensino Da Geografia

Nova ordem mundial, globalização, Terceira Revolução Industrial ou revolução técnico-científica, multipolaridade, sociedade pós-capitalista, competição econômica e tecnológica no lugar da rivalidade político-militar... Todas essas temáticas ou idéias podem ser encontradas atualmente com grande freqüência nos meios acadêmicos e até na mídia. A respeito delas existem diversas leituras, controvérsias, usos alternativos. Mas elas fundamentalmente se entrecruzam e dizem respeito aos anos 90 e às perspectivas para o século XXI. Século XXI que iniciou-se desde 1991, com a implosão da ex-União Soviética e o final da Guerra Fria; com o apoio de dois importantes autores, podemos lembrar que para o historiador Eric Hobsbawn "O século XX curto iniciou-se em 1914-17 e terminou em 1989-91", e na interpretação do economista norte-americano Lesler Thurow o século XXI começou em 1994, quando “Os Estados Unidos pela primeira vez em mais de cem anos deixaram de ser a maior potência econômica do globo”, fato que ocorreu a partir do momento em que os países membros da antiga CEE ratificaram o Tratado de Maastricht e criaram a União Européia.
Mas não vamos nos alongar aqui a respeito da nova (des)ordem mundial ou das mudanças no mapa-mundi, inclusive porquê já o fizemos numa obra bem mais extensa1. O que pretendemos enfatizar são as mudanças econômico-sociais decorrentes da chamada Terceira Revolução Industrial e seus impactos na força de trabalho e consequentemente na escola e no ensino da geografia. É evidente, no entanto, que essa temática insere-se na nova ordem mundial e em especial nas perspectivas para o século XXI, que mesmo tendo já começado encontra-se ainda num estágio embrionário ou de desenvolvimento inicial.
Também não iremos, principalmente pela falta de tempo e espaço, tematizar o porquê das mudanças econômico-tecnológicas e sociais, e estamos partindo do pressuposto que todos os aspectos do social estão interligados, com redes de influências recíprocas, embora não seja possível fixar aprioristicamente que um desses fatores ("as forças produtivas", por exemplo, ou as "relações de produção", tal como nos dizeres da cartilha marxista-leninista) seja sempre o determinante ou a mola propulsora frente aos demais. Enfatizaremos aqui as mudanças no mercado de trabalho e as suas influências no ensino, embora isso não implique num juízo de valor segundo o qual o sistema escolar deve caminhar – e nem mesmo que ele sempre caminha – atrelado a esse condicionante. Mas acreditamos que por mais que se valorize a importância da escola formal para o desenvolvimento da cidadania e das potencialidades do educando – algo sobre o qual nunca é demais insistir –, na prática sempre há uma indissociável ligação com a questão do trabalho (que ainda é fundamental na sociedade moderna, apesar de talvez não ser mais o alicerce fundante desta). Por um lado o sistema escolar é sem dúvida um instrumento de libertação (individual e coletiva) e de expansão da democracia, mas, por outro lado, desde as suas origens ele teve como uma de suas determinações (não confundir com determinismo) a necessidade de (re)socializar as pessoas, em especial as novas gerações (hoje não mais apenas nem principalmente estas, como veremos a seguir), com vistas às mudanças sócio-econômicas, ou, em outras palavras, às necessidades de reprodução ampliada do sistema. Cabe ainda ressaltar que o fato de valorizarmos as mudanças econômico-tecnológicas para explicar as transformações que vêm se operando no sistema escolar não significa que acreditemos que essas mudanças sejam autônomas ou que elas caminhem sempre em primeiro lugar, isto é, que sejam a locomotiva do social. Pelo contrário, pensamos que elas só adquirem em determinados momentos históricos um papel essencial porquê e quando determinadas condições políticas e até culturais as permitem ou inclusive as incentivam. Mas não iremos aqui e agora nos ocupar dessa complexa questão das relações de poder e dos valores societários que dão origem à inovação tecnológica.

Cf. VESENTINI, J.W. A nova ordem mundial. São Paulo, Ática, 1995, Col.Geografia Hoje.