sexta-feira, 2 de abril de 2010

A Geografia Têmporo-Espacial

A Geografia Têmporo-espacial procura analisar as atividades dos indivíduos e das sociedades em função das variáveis tempo e espaço, visando traçar as trajetórias dos ritmos de vida (diários, anuais e da própria duração da vida) assinalando a alocação de tempo despendido nas diversas atividades e nos vários lugares. O contexto abrangido pelo território ao alcance do indivíduo, ou da sociedade, corresponde ao seu meio ambiente, dentro do qual ele executa as suas atividades, considerando as escalas temporais do dia, do ano ou da própria vida.
Tomando como base os trabalhos realizados por Torsten Hagerstrand, a partir de 1970, esta tendência originou o Grupo de Geografia do Tempo (Time-Geography Group), na Suécia. Na atualidade, vários outros grupos e escolas já se dedicam a essa temática, como o Grupo Multinacional de Orçamento Comparativo de Tempo (Mültinational Comparative Time-Budget Group), o Grupo Chapin, na Carolina do Norte (E.U.A.) e a Escola de Becker, que se dedica à alocação temporal na economia.
A perspectiva da análise têmporo-espacial não procura ser um campo distinto e específico no conjunto das Ciências Sociais, como se fosse uma nova disciplina. mas visa promover a integração de áreas diversificadas do conhecimento superando a lacuna entre a ciência sócio-econômica, de um lado, e a ciência bio-ecológica e tecnológica, de outro (Carlstein e Thrift,1978). É nessa integração relacionada com o uso dos recursos témporo-espaciais, que surgem das características da organização espacial, que se estabelece o potencial significativo da Geografia. A sua principal diferença reside em salientar a significância das "qualidades formais do tempo e do espaço", e não na procura de uma categoria de fenômenos substanciais que servisse de objeto específico para sua caracterização. Os fenômenos analisados são pertencentes ao mundo das Ciências Sociais e Biológicas, "consistindo em indivíduos e populações humanas, vegetais e animais à medida que interagem com o homem, com as suas atividades, com o tempo, com o espaço, com a sua organização e instituições, com as suas metas e valores, com os seus movimentos e mobilidade, com as suas percepções e ideologias, e assim por diante" (Carlstein e Thrift, 1978). Isto porquê "as propriedades universalmente difundidas de tempo e espaço como dimensões locacionais, distributivas e existenciais da maior parte dos fenômenos são básicas à compreensão dos elementos e processos encontrados no mundo real".
As questões relacionadas com o uso do tempo são fundamentais para a perspectiva têmporo-espacial da Geografia, tanto em relação ao indivíduo como em relação aos grupos. As atividades desenvolvidas pelos indivíduos e grupos, na família, nos locais de trabalho e nas horas de lazer exigem construçõees adequadas, meios de transporte e organização dos horários. Para que os membros da sociedade possam usufruir dos divertimentos e lazeres, por exemplo, é preciso que essas atividades sejam oferecidas fora dos seus horários de trabalho e numa localização próxima da sua residência, que permita um deslocamento conveniente e acessível de ida e volta. A escolha de residência, de locais de trabalho, de cidades para morar, são decisões que envolvem seleção de pontos para usufruir das regalias e disponibilidades sociais e para distribuir convenientemente o uso do tempo diário nas diversas atividades. Os recursos individuais e familiares (renda, uso de carro etc.) criam condições que liberam as pessoas para agir numa porção maior do espaço e para executar tarefes mais diversificadas.
Nas sociedades industriais o desenvolvimento tecnológico intensifica a produtividade e promove a diminuição das horas das jornadas de trabalho. O indivíduo passa a dispor de mais "horas livres" que podem ser gastas em atividades culturais, recreativas, esportivas, sociais e outras. Há necessidade de organizar-se a distribuição espacial dos locais que permitam essas atividades, assim como dispor o seu horário de funcionamento para atingir o maior número possível de usuários. Considerando o ritmo das atividades diárias, os programas de televisão, por exemplo, procuram atingir faixas distintas da população em suas transmissões matinais, vespertinas e noturnas.
As atividades produtivas e as características das classes sócio-econômicas são importantes na análise têmporo-espacial. São significativas, por exemplo, as diferenças no uso do tempo entre as populações urbanas e as rurais. Outro aspecto relaciona-se com o valor do tempo gasto. As pessoas de baixo nível social e cultural executam tarefas de baixo rendimento pois o seu tempo é barato. As pessoas de alto nível social e cultural apresentam valor do tempo muito mais elevado, cujo gasto não é destinado à execução de tarefas simples e rotineiras. Delegar as tarefas domésticas e de limpeza às empregadas é procedimento usual nas famílias abastadas, assim como os subalternos executam muitas tarefas delegadas pelos patrões e dirigentes.
As questões e os problemas que podem ser focalizados sob a perspectiva têmporo-espacial são muito diversos, envolvendo aspectos da localização espacial dos artefatos humanos e a distribuição do uso do tempo. Representando mais um instrumento de análise, um "modelo têmporo-geográfico", essa focalização não surge como uma nova perspectiva geográfica. Valorizando os entrelaçamentos das variáveis tempo e espaço, pode ser englobada e manejada pelos adeptos da Nova Geografia, da Geografia Humanistica e da Geografia Radical, sendo possível aplicar-Ihe os procedimentos metodológicos e os posicionamentos explicativos que se queira atribuir aos fenômenos organizacionais das sociedades humanas.
Em 1973, Alan R. Pred redigiu valioso apanhado global sobre as atividades geográficas em desenvolvimento na Suécia. Um dos itens sintetizava os conceitos e as perspectivas do modelo têmporo-geográfico das sociedades, estabelecido conforme a proposição de T. Hagerstrand.

5. CONSIDERAÇÃO FINAL
As diversas correntes e tendências que fluem nos estudos geográficos da atualidade delineiam as características e os rumos para a Geografia. Essas perspectivas enriquecem-na conceitualmente e promovem o seu dinamismo científico e utilitário. A Geografia continua sendo uma ciência, com ebulições variadas em seu âmbito. Ao geógrafo, ao indivíduo praticante, cabe fazer a Geografia tornando-se adepto de uma ou outra perspectiva, analisando o conjunto global ou as categorias setoriais dos fenômenos. Compete ao geógrafo conhecer as várias tendências, avaliar seus pontos positivos e negativos, as suas vantagens e desvantagens, e conscientemente optar por uma delas. Ou, validamente, propor novas perspectivas que sejam mais eficazes e satisfatórias que as anteriores.
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Transcrito do livro Problèmes de Géogrephie Humaine (Paris, Librairie Armand Colin, 1952), p. 25-34. Tradução de Jaci Silva Fonseca.

Um comentário:

  1. Professor Jeronymo,
    Apreciei bem seu Blog. Parabéns.
    Tenho uma dúvida a lhe propor: gostaria de compreender, visualmente, os conceitos de Latitude e Longitude. Ainda não encontrei um livro que me tirasse minhas dúvidas a este respeito.
    Também tenho um Blog (Histórias de Pedro 100), no seguinte endereço:
    www.seridos.blogspot.com/
    Atenciosamente,
    Otamar de Carvalho

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